segunda-feira, 27 de abril de 2015

tortura

Sonhei que a escrita me confrontava. Me questionava, me batia com suas palavras cheias de si, rebuscadas. Aquelas palavras não eram saídas de mim, mas de um subconsciente que insistia em me punir em cada vã tentativa de exprimir algo. E eu tentava explicar que a culpa não estava em mim, que nada daquilo era proposital. Inventava réus: era o ambiente, a fase, a cabeça que não andava bem. Era a ausência de estímulos, a ausência de um olhar poético. E em resposta eu tinha letras garrafais, exclamações, textos desconexos com xingamentos, baixo calão. Escrever é um exercício, ela gritava. Eu me encolhia, me arrepiava, queria fugir da minha cabeça. Queria ela de volta; quero-a de volta. Ouvia-a dizer que meu castigo seria a secura da minha sensibilidade, a ausência do meu olhar simplista em forma e complexo em profundidade. E então ela convocava Quintana, Pessoa, Clarice, Peixoto, Lygia. Todos meus agora desamores. Todos gritando “indigna! farsante! charlatã!”. Quintana me olhava com olhos de vazio e desprezo. Quis mostrá-lo a carta que o escrevi um dia, mas procurando meus cadernos de poesia, encontrei apenas cinzas. A escrita soltava uma risada maldosa que me quebrava inteira. Pedi piedade, expliquei que doía com ela, mas sem ela era insuportável. Os sentimentos entupiam as veias, saltavam à pele. Estava enferma, precisava de sua propriedade terapêutica. Perdi perdão pelas vezes em que ousei maldizê-la por me confrontar com a verdade, pelos textos malcriados endereçados a ela. Meu inferno era não tê-la comigo. Ela pareceu se comover; voltou a usar seu tom de normalidade, substitui a exclamação pelo ponto. Disse que talvez pudesse considerar um retorno. Me deu as costas. Pessoa veio até mim e sussurrou que o fardo era grande demais, que eu era muito nova pra uma alma tão dependente. Ri com desdém.  

Todas as noites espero que ela venha. Como quem faz prece, pego papel e caneta e rabisco frases pobres e facilmente descartáveis. Meus sonhos agora têm todos os olhos vazios de Quintana.

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