sábado, 18 de outubro de 2014

Sobre ser por inteiro

   O quanto a gente se poda por medo de se mostrar 100%? O quanto a gente se esconde pra não ter que encarar nos olhos a sociedade travestida de juíza? E se eu quiser conversar abertamente sobre drogas, sem hipocrisia, sem moralismos, com argumentos concisos e científicos? E se eu quiser gritar meu feminismo aos quatro cantos, sem deixar espaços para homens se manifestarem numa luta que é só minha? E se eu ousar ser eu: nua, sem máscaras, sem medida, integralmente e por inteiro, sem vestígios de dissimulação, sem pisar em ovos, sem esperar a hora certa pra falar? Quem me roubou o direito de ser por inteiro? Quem ditou que ser demais não me convém? A quem devo satisfações sobre meus preconceitos descontruídos dia-a-dia, meu aprendizado doloroso, minha tentativa de ser melhor? Sim, sou melhor! Veja que improvável! Aos olhos do juiz, minha condenação é certa. Prendam a imoral, a paranoica, a ousada demais. Aqui não cabe. Aqui não caibo. Mas dentro de mim está tudo certo. Dentro de mim, sou melhor. Sou mais paciente, tolerante, compreensiva, compassiva. Não sou imune a julgar o outro porque condicionaram-me juíza, mas tendo consciência disso, policio-me sempre que posso. Revejo conceitos, repenso, mudo o viés, a opinião e a postura. Não sou correta, mas aprendo a errar. À todos nós, falta humildade. Humildade de reconhecer-se como imperfeitos. Humildade de abaixar o dedo em riste e substituir por uma mão aberta que conduza o outro para uma conversa. Por que ouvir nos faz tão vulneráveis? Por que minha resposta precisa estar pronta ao término da sua fala? Por que não me concedem o tempo da dúvida, da digestão dos conceitos e sua provável desconstrução? Refletir mais; não nos falta tempo. Estar atento ao outro como igual, como também vulnerável e passível de erros. Quando nos tornamos tão pequenos a ponto de nos considerarmos mais dignos de reconhecimento que o outro? Mais dignos de respeito, de pena, de assumirmos um protagonismo numa história sem papel principal? 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixe sua lembrança...