terça-feira, 13 de maio de 2014

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Olho-me no espelho e vejo vestígios de mim. Não sei o que sou, o que quero ser; só sei o que fui um dia e é uma parte que não mais vive comigo. Meus olhos abrigam um pupila que viu pouco e só agora começa a refletir sobre essas escassas imagens gravadas na retina.
Desesperador perder-se. Perder-se e não se encontrar mais, ainda que eu tente. Não sei ao certo para onde caminho, mas de repente o mundo se mostrou tão grande que me fez sentir infinitamente pequena e incapaz. Incapaz de assimilar todas as minhas revoltas, reivindicações, percepções e vontades. Tudo o que vejo parece complexo demais pra ser passível de compreensão. Pela primeira vez minhas mudanças não são superficiais e isso me assusta ao mesmo tempo em que me instiga. Será que perco minha essência? O que de fato é mudar? Que valores me moldaram? São imutáveis?
O espelho reflete também as rugas. Não são minhas - tampouco muitas -, mas me identifico com esse ser em construção, cru e errante. Há uma vontade de maturar ainda mais, de cair. Há necessidade de olhar o novo, o outro, entendê-lo como igual, como parte do todo. 
Aqueles à minha volta me questionam, não me entendem (e quem sou eu pra exigir isso?); preocupam-se de eu estar me perdendo. Perder-se é sempre negativo? E se preciso for pra encontrar-se? Muitas perguntas, resposta alguma. Emaranhado de coisas na cabeça e coração e nada no papel. Até a escrita deu um tempo de mim. Perdi minha poesia (como dói!)... Não sei mais se ao olhar no espelho consigo ver minha doçura!
O mais estranho é sentir-se bem ao estar desconfortável. Sinto-me a personificação do paradoxo. Nem as figuras de linguagem cabem mais em mim...
E esse texto já não faz jus ao que sinto. Isso nunca vai mudar, ainda que a escrita seja o que de mais verdadeiro eu possa exprimir. Falta-me verdade, ou mesmo convicção no que escrevo. 
Amanhã é só mais um dia e talvez eu volte no trem sem saber bem o que pensar, sem entender meus gestos maquinais, sem a certeza daquilo que faço, sem saber direito por quê chorar. Talvez eu me olhe no espelho e me reconheça nessa indefinição.
Me disseram que a vida toda a gente muda... E também que devíamos agradecer por isso. Mas agora eu só queira uma única certeza. E paz.

"A minha vida, é como se me batessem com ela."
Livro do Desassossego - Fernando Pessoa

Obrigada, Mari. Mais uma vez.