sábado, 27 de dezembro de 2014

vida em suspensão

Entre os corredores gelados, os gestos automáticos e os restos de vida, parentes de pé. Despreparados, sem saber o que esperar mas confiantes de ser aquilo um pesadelo que não condiz com a perfeita sinfonia de suas vidas lá fora. Muitos nunca sequer encararam a morte de perto. Ali as horas são preguiçosas, os minutos se arrastam e qualquer jaleco branco é uma possível esperança. Como é portar o futuro de uma família? Como é poder ser alívio ou tragédia? E sempre as notícias parecem escassas, insuficientes ou adornadas com termos técnicos demais, frios demais e desconexos demais. Nada faz sentido nos corredores estreitos, nada parece diminuir a ansiedade e nenhuma palavra de conforto cumpre o que promete.
Há também o juizado das vidas. Eles chamam CTI. Ali decide-se viver ou morrer. Ali definham-se ou curam-se. Ali lavam-se as mãos para entrar a fim de não trazer as impurezas de um mundo imundo aos moribundos. Ali as camas são grandes demais pra corpinhos encolhidos e reduzidos à insignificância da vida. Ali muitos cabelos são brancos, muitos ossinhos frágeis. Muitas jornadas jovens são interrompidas, muitos rostos envelhecem rapidamente com a monotonia, o tédio e a dependência. A vida está ali por um fio. Os aparelhos estão sempre ligados, vigilantes com seus bips quase ininterruptos. E de repente o óbito.
O que dói no hospital são os amores resumidos a. Um aparelho, um remédio, um dreno, uma sutura. Uma fratura exposta revela a fragilidade da vida. E repentinamente formam-se especialistas em determinadas doenças em pouco menos de uma semana. Dominam-se os termos técnicos, as prescrições são decoradas, os cuidados seguidos à risca. E o medo. O medo que espreita sempre a maca, a cama, a cadeira. Medo da fragilidade de ser, de sentir, de ter.
Um dia calça, blusa, sapatos, bolsa. No outro o jaleco e a nudez de todos os pudores e vaidades antes prezados.
Eis que a vida parou, apesar do mundo lá fora continuar seu curso. Os acontecimentos externos parecem não pertencerem a uma mesma realidade. As festas e comemorações parecem mais um insulto. Quem são vocês que riem enquanto o choro permanece preso aqui na tentativa vã de transparecer força? 
(Hoje eu só quero que o ano termine)


sábado, 18 de outubro de 2014

Sobre ser por inteiro

   O quanto a gente se poda por medo de se mostrar 100%? O quanto a gente se esconde pra não ter que encarar nos olhos a sociedade travestida de juíza? E se eu quiser conversar abertamente sobre drogas, sem hipocrisia, sem moralismos, com argumentos concisos e científicos? E se eu quiser gritar meu feminismo aos quatro cantos, sem deixar espaços para homens se manifestarem numa luta que é só minha? E se eu ousar ser eu: nua, sem máscaras, sem medida, integralmente e por inteiro, sem vestígios de dissimulação, sem pisar em ovos, sem esperar a hora certa pra falar? Quem me roubou o direito de ser por inteiro? Quem ditou que ser demais não me convém? A quem devo satisfações sobre meus preconceitos descontruídos dia-a-dia, meu aprendizado doloroso, minha tentativa de ser melhor? Sim, sou melhor! Veja que improvável! Aos olhos do juiz, minha condenação é certa. Prendam a imoral, a paranoica, a ousada demais. Aqui não cabe. Aqui não caibo. Mas dentro de mim está tudo certo. Dentro de mim, sou melhor. Sou mais paciente, tolerante, compreensiva, compassiva. Não sou imune a julgar o outro porque condicionaram-me juíza, mas tendo consciência disso, policio-me sempre que posso. Revejo conceitos, repenso, mudo o viés, a opinião e a postura. Não sou correta, mas aprendo a errar. À todos nós, falta humildade. Humildade de reconhecer-se como imperfeitos. Humildade de abaixar o dedo em riste e substituir por uma mão aberta que conduza o outro para uma conversa. Por que ouvir nos faz tão vulneráveis? Por que minha resposta precisa estar pronta ao término da sua fala? Por que não me concedem o tempo da dúvida, da digestão dos conceitos e sua provável desconstrução? Refletir mais; não nos falta tempo. Estar atento ao outro como igual, como também vulnerável e passível de erros. Quando nos tornamos tão pequenos a ponto de nos considerarmos mais dignos de reconhecimento que o outro? Mais dignos de respeito, de pena, de assumirmos um protagonismo numa história sem papel principal? 

terça-feira, 13 de maio de 2014

Busca

Olho-me no espelho e vejo vestígios de mim. Não sei o que sou, o que quero ser; só sei o que fui um dia e é uma parte que não mais vive comigo. Meus olhos abrigam um pupila que viu pouco e só agora começa a refletir sobre essas escassas imagens gravadas na retina.
Desesperador perder-se. Perder-se e não se encontrar mais, ainda que eu tente. Não sei ao certo para onde caminho, mas de repente o mundo se mostrou tão grande que me fez sentir infinitamente pequena e incapaz. Incapaz de assimilar todas as minhas revoltas, reivindicações, percepções e vontades. Tudo o que vejo parece complexo demais pra ser passível de compreensão. Pela primeira vez minhas mudanças não são superficiais e isso me assusta ao mesmo tempo em que me instiga. Será que perco minha essência? O que de fato é mudar? Que valores me moldaram? São imutáveis?
O espelho reflete também as rugas. Não são minhas - tampouco muitas -, mas me identifico com esse ser em construção, cru e errante. Há uma vontade de maturar ainda mais, de cair. Há necessidade de olhar o novo, o outro, entendê-lo como igual, como parte do todo. 
Aqueles à minha volta me questionam, não me entendem (e quem sou eu pra exigir isso?); preocupam-se de eu estar me perdendo. Perder-se é sempre negativo? E se preciso for pra encontrar-se? Muitas perguntas, resposta alguma. Emaranhado de coisas na cabeça e coração e nada no papel. Até a escrita deu um tempo de mim. Perdi minha poesia (como dói!)... Não sei mais se ao olhar no espelho consigo ver minha doçura!
O mais estranho é sentir-se bem ao estar desconfortável. Sinto-me a personificação do paradoxo. Nem as figuras de linguagem cabem mais em mim...
E esse texto já não faz jus ao que sinto. Isso nunca vai mudar, ainda que a escrita seja o que de mais verdadeiro eu possa exprimir. Falta-me verdade, ou mesmo convicção no que escrevo. 
Amanhã é só mais um dia e talvez eu volte no trem sem saber bem o que pensar, sem entender meus gestos maquinais, sem a certeza daquilo que faço, sem saber direito por quê chorar. Talvez eu me olhe no espelho e me reconheça nessa indefinição.
Me disseram que a vida toda a gente muda... E também que devíamos agradecer por isso. Mas agora eu só queira uma única certeza. E paz.

"A minha vida, é como se me batessem com ela."
Livro do Desassossego - Fernando Pessoa

Obrigada, Mari. Mais uma vez.