sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Ela, mais uma vez (e quantas forem necessárias)

Quando da escrita já se sugou tudo, resta apenas o papel em branco. Cru, sincero, resignado. Esperando a tinta da caneta que rola nos dedos indecisos. Nos olhos, a lágrima. Lágrima cansada, vacinada, mas ainda lágrima. Não é como o choro que cobra e exige compulsão; duas ou três gotas são o decreto de que o sofrimento já foi mais pungente, ainda que isso não queira dizer que não está mais ali. Coração aperta numa tentativa vã de liberdade. Exige da escrita. Exige demais, mais do que ela consegue compreender. A mente tenta acompanhar tudo; cria metáforas, elabora períodos, lembra-se da pontuação. Esta é fria e calculista, mas sente para a escrita não ser suficiente. Escrever exige o máximo de cada aspecto de si. A escrita não se contenta com uma expressão meia-boca daquilo que quer passar. Não está nunca satisfeita porque procura fazer jus ao que há de mais íntimo no ser humano. Desvenda verdades, omite o óbvio. Faz do escritor o que quiser, leva-o à loucura ainda que inconscientemente. Precisa ser liberta e para isso sempre dá um jeito. Não a subestime, não a sufoque na tentativa de sair ileso; é em vão.
Ela pode fingir dormir, mas acorda mais voraz, cobrando redenção em forma de verdade.
E como dói.