terça-feira, 3 de setembro de 2013

Sangrar-se

Estávamos ela e eu. Amigas na cumplicidade dos dias nem sempre compartilhados, mas tão singelos. Não cabe aqui detalhar a amizade, mas que conste que se entendiam e encontravam-se sempre nas palavras. Podiam ler-se uma a outra e isso bastava.
Eis que encontravam-se num curso de Artes, porém com objetivos distintos que também aqui não sei defini-los por razões óbvias: eu era eu naquele momento e isso era tudo o que importava, pois me reconhecia como tal. Dentre outras atividades da oficina, estava uma que intitulava-se Reconhecimento. A professora explicou que a tarefa era escrever com diferentes tipografias e diversos tamanhos, características que definiam cada um. Para tanto, muniu os alunos com tinta, pincel e uma espécie de cartolina de tamanho mediano.
Sentia-me nervosa de início. Conforme aqueles ao meu redor avançavam imersos cada um em sua tarefa, eu encarava a branquidão da folha serena que, ao invés de me acalmar, irritava-me. Respirei.
Molhei o pincel na tinta vermelha. 
Encostei sua ponta na folha e comecei a formar letras. Ao fazê-lo, o peito de repente se apertou. Senti uma angústia tremenda, como se aquele gesto não só me esbofeteasse, mas me enfiasse mil farpas cortantes. E aquele vermelho sangrava na folha; era meu aquele sangue.
Continuei e tentei outras tipografias. Aumentava o tamanho quando queria escrever uma característica ruim minha. Queria gritar aquelas palavras na tentativa de me aceitar imperfeita. As qualidades saíam tortas, estranhas. Pequenas e insignificantes.
Olhei para trás. Minha amiga me fitava. Eu chorava. Ela, olhos piedosos, resignados, confortantes, assentia para que eu continuasse minha tentativa vã de auto-definição. As lágrimas iam livres e salientes como que presas há muito em meu rosto. 
Continuei a tarefa cada vez mais árdua. Agora me faltava o ar e o coração parecia envolto em mil correntes e, paradoxalmente, não cabia no peito de tão dilatado.
Rasguei a folha borrocada, amassada, escorrendo sangue. E acordei.

Acordei ofegante. Era um sonho. Ou pesadelo, como for. 
Mais uma manifestação da escrita pelo meio que lhe cabia. Protestando pela minha greve de palavras, achou a forma mais dolorida de assaltar-me a paz: no sono, que é quando desliga-se daquilo que machuca de alguma forma. 
O meu choro era de impossibilidade. Não sei me restringir a palavras, ainda que o que eu faça aqui seja, afinal, nada mais que isso. O recado foi justamente esse: buscar ilimitar-me através da escrita e não definir-me como é de costume.
Se pudesse voltar ao sonho (por que nunca se consegue?), deixaria a folha em branco.

Um comentário:

  1. Como sempre, ler um texto seu acaba se tornando uma leitura de mim mesma nos mais diversos sentidos: a minha presença nos seus escritos, motivo pelo qual serei eternamente grata e (por que não?)orgulhosa; as suas palavras tão carregadas de tantos sentimentos que trago comigo; a doçura de ver beleza até mesmo na dor... Encontro entendimento nos seus textos,cumplicidade. É como receber um abraço apertado e você bem sabe como eu sou em relação a abraços.
    Quanto ao (re)conhecimento do nosso próprio eu, sempre será um processo dolorido e solitário. Não há como transferir para o outro o peso de sermos nós e a mais ninguém cabe a tarefa da aceitação. O maior desafio é saber nos enxergar por nossos próprios olhos sem deixar de ver o que os outros veem. E em você, Paulinha, existe um mundo de docilidades a ser descoberto, basta você saber procurar.

    Com amor sempre,
    Mariana.

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