quarta-feira, 29 de maio de 2013

(sobre)viver em poesia

Eram já velhinhas, pele emborrachada, falta de viço, cabelos ambos sem vestígios de juventude, brancos por (falta de) opção. Frequentavam sempre o mesmo bailinho, músicas raras denunciadas pelo público de andar paciente. Apesar do ambiente em comum, nunca haviam se falado, apesar da ausência de uma ser notável a outra, e vice-versa. Iam sobrevivendo num lar de idosos juntamente com outras quase 80 criaturinhas tidas como senis por seus parentes. Na praça foi onde trocaram miúdos pela primeira vez.
"Que tanto leres, pode-se saber?"
"Um livro, ora."
"Juras? Estava a crer que era a bula de um remédio pra doenças de velho que certamente tens."
"A título de informação, medicamento não me agrada, vou vivendo como posso sem eles. Leio Quintana, "A cor do invisível"."
"Devias ler algo mais contemporâneo; de velharia já basta esse lugar abarrotado delas. E Quintana sempre me pareceu rabugento... Mas fez poesia, o desgraçado."
"Audácia tua meteres o nariz onde não foste chamada. Deixe meu Quintana dormir em paz."
Naquele momento viraram amigas. Assim, do improvável. Caçoavam-se sempre que podiam, e no meio de tanto, divagavam sobre o nada. Numa das conversas:
"Sabes que queria ter sido o que não fui quando jovem..."
"Pois eu não, sinto-me orgulhosa do que me tornei."
"São distintas o que és e o que não foste, velha. Refiro-me aos planos que eu tinha quando nova. Sonhava ter o mundo nas mãos e agora o que me resta é o balanço dessa cadeira que por sinal machuca meus ouvidos toda vez que range esse lamento insuportável e seco."
"Só reclamas?... Sim, bem verdade que gostaria de ter sido algo. Mas o que temos agora é esse filete de vida, se é que devo assim chamá-la. Pelo menos temos uma a outra."
"De que me adianta ter estas conversas gagás? Estamos as duas decrépitas. Se ao menos tivéssemos sido poetas..."
"Poeta a troco de quê, coisa? São seres intimistas, veem coisas onde não há. Onde já se viu livro que chama "A cor do invisível"? Transformam coisinhas insignificantes nas mais belas de um mundo inteiro. E pra quê? A realidade depois vem num baque. Nós é que somos trouxas de ler tais sandices."
E as duas cínicas só faziam rir por dentro de tamanha hipocrisia. Certo dia, a mais sensata fez um apelo:
"Tens que prometer que o dia que estiveres sentindo a morte vir a te buscar vais me avisar pra que eu me prepare sem demoras."
"Tais louca, mulher? Já ouviu alguém prever a própria morte?"
"Então achas que não? Ela deve dar-nos um sinal que seja, um arrepio, um calafrio, um susurro, o que for. Não é possível morrer sem ter chance de pedirmos perdão pelo o que não fizemos... Só prometas que vais me avisar."
"Falas essas asneiras e qualquer dia te botam no hospício. Mas tá certo, diz o ditado que loucos não devemos contrariar."
Assim viviam. Entendiam-se no silêncio, na pausa, no compartilhamento dos versos, nas rabugices mútuas. Nos poetas, nas horas todas vagas, no desespero de uma vida correndo como areia em ampulheta. Assim viviam até que.
"Ouça; hoje acordei e fui buscar Pessoa na prateleira. Debrucei-me sobre as páginas a sortear um poema qualquer, aleatoriamente. O poema "A morte chega cedo" me escolheu."
"O que tem isso?"
"Não percebes? A morte é generosa; veio em forma de poesia."
"Queres dizer que estás a morrer? Cadê a agonia? O remorso, a loucura, tua percepção desesperada do fim?"
"Não há nada disso, estou até conformada. Sinto grande vazio a me preencher. Não deve doer nada, estou despreocupada. Além disso, quero que fiques com meu acervo. E cuide bem do Quintaninha."
"Ora, pare de me amolar com besteiras e vamos tomar sol que hoje aquele velhote das bochechas rosadas vem à Praça me espiar.."
Dois dias depois, partiu pro descanso enfim a velha que previu a própria morte. Dormiu tranquilamente com um hai-kai de Leminski sem mais acordar.
A outra quis ir junto da mesma forma, sem saber que a poesia é quem nos escolhe, bem como a morte.

(Projeto de conto inspirado em A máquina de fazer espanhóis, do sensível valter hugo mãe. Dedicado a Mari, menina grande da qual também sou tiete.)

segunda-feira, 13 de maio de 2013

recesso

Não que o que vou falar aqui seja novo, na verdade é até muito conhecido, infelizmente. Mas sinto que preciso escrever para registrar isso e não deixar o blog assim, um tanto quanto desleixado e com aspecto de que perdeu a importância. Dói mais do que gostaria admitir que minha escrita amuou; perderam-se as palavras, perdeu-se o sentido e tudo o que escrevo parece clichê, algo que já foi escrito com maestria por algum autor incrível ou pior, por alguma adolescente que sofre de amores e só consegue "escrever" quando apaixonada. Todas as minhas leituras andam críticas. Queria dizer que estou feliz com isso, mas o efeito é justamente o contrário: sinto-me impotente de exprimir as formas da maneira que gostaria e me sinto um fracasso por isso. Sei o que quero dizer, mas no momento em que penso em transcrever qualquer esboço de ideia, tudo parece ridículo e pequeno. Vou mesmo escrever sobre isso? E de repente é tudo clichê demais e minha impaciência é a maior do mundo. Quero ultrapassar tudo, quero pular toda essa dúvida, o amadurecimento, a forma, a base, a estrutura e partir pro texto amargurado, já feito, refeito, pensado, pronto. Talvez isso reflita minha pressa de chegar a qualquer lugar que tenho tido no dia a dia.
De qualquer forma, volto quando toda essa confusão de coisas não-ditas e não-escritas estiver passado. Quando algo me inspirar tanto a ponto de não caber numa folha de papel. Quando chorar pra escrever um trecho volte a ser libertador e não sufocante. Volto quando a vida me inspirar e pedir.
Palavras, enfim, tiraram férias.