sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Ela, mais uma vez (e quantas forem necessárias)

Quando da escrita já se sugou tudo, resta apenas o papel em branco. Cru, sincero, resignado. Esperando a tinta da caneta que rola nos dedos indecisos. Nos olhos, a lágrima. Lágrima cansada, vacinada, mas ainda lágrima. Não é como o choro que cobra e exige compulsão; duas ou três gotas são o decreto de que o sofrimento já foi mais pungente, ainda que isso não queira dizer que não está mais ali. Coração aperta numa tentativa vã de liberdade. Exige da escrita. Exige demais, mais do que ela consegue compreender. A mente tenta acompanhar tudo; cria metáforas, elabora períodos, lembra-se da pontuação. Esta é fria e calculista, mas sente para a escrita não ser suficiente. Escrever exige o máximo de cada aspecto de si. A escrita não se contenta com uma expressão meia-boca daquilo que quer passar. Não está nunca satisfeita porque procura fazer jus ao que há de mais íntimo no ser humano. Desvenda verdades, omite o óbvio. Faz do escritor o que quiser, leva-o à loucura ainda que inconscientemente. Precisa ser liberta e para isso sempre dá um jeito. Não a subestime, não a sufoque na tentativa de sair ileso; é em vão.
Ela pode fingir dormir, mas acorda mais voraz, cobrando redenção em forma de verdade.
E como dói.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Sangrar-se

Estávamos ela e eu. Amigas na cumplicidade dos dias nem sempre compartilhados, mas tão singelos. Não cabe aqui detalhar a amizade, mas que conste que se entendiam e encontravam-se sempre nas palavras. Podiam ler-se uma a outra e isso bastava.
Eis que encontravam-se num curso de Artes, porém com objetivos distintos que também aqui não sei defini-los por razões óbvias: eu era eu naquele momento e isso era tudo o que importava, pois me reconhecia como tal. Dentre outras atividades da oficina, estava uma que intitulava-se Reconhecimento. A professora explicou que a tarefa era escrever com diferentes tipografias e diversos tamanhos, características que definiam cada um. Para tanto, muniu os alunos com tinta, pincel e uma espécie de cartolina de tamanho mediano.
Sentia-me nervosa de início. Conforme aqueles ao meu redor avançavam imersos cada um em sua tarefa, eu encarava a branquidão da folha serena que, ao invés de me acalmar, irritava-me. Respirei.
Molhei o pincel na tinta vermelha. 
Encostei sua ponta na folha e comecei a formar letras. Ao fazê-lo, o peito de repente se apertou. Senti uma angústia tremenda, como se aquele gesto não só me esbofeteasse, mas me enfiasse mil farpas cortantes. E aquele vermelho sangrava na folha; era meu aquele sangue.
Continuei e tentei outras tipografias. Aumentava o tamanho quando queria escrever uma característica ruim minha. Queria gritar aquelas palavras na tentativa de me aceitar imperfeita. As qualidades saíam tortas, estranhas. Pequenas e insignificantes.
Olhei para trás. Minha amiga me fitava. Eu chorava. Ela, olhos piedosos, resignados, confortantes, assentia para que eu continuasse minha tentativa vã de auto-definição. As lágrimas iam livres e salientes como que presas há muito em meu rosto. 
Continuei a tarefa cada vez mais árdua. Agora me faltava o ar e o coração parecia envolto em mil correntes e, paradoxalmente, não cabia no peito de tão dilatado.
Rasguei a folha borrocada, amassada, escorrendo sangue. E acordei.

Acordei ofegante. Era um sonho. Ou pesadelo, como for. 
Mais uma manifestação da escrita pelo meio que lhe cabia. Protestando pela minha greve de palavras, achou a forma mais dolorida de assaltar-me a paz: no sono, que é quando desliga-se daquilo que machuca de alguma forma. 
O meu choro era de impossibilidade. Não sei me restringir a palavras, ainda que o que eu faça aqui seja, afinal, nada mais que isso. O recado foi justamente esse: buscar ilimitar-me através da escrita e não definir-me como é de costume.
Se pudesse voltar ao sonho (por que nunca se consegue?), deixaria a folha em branco.

domingo, 16 de junho de 2013

estado de arte


Aperte o play e prometo que valerá a pena. Sobre estar num estado de arte imerso, completo, sem volta, sedento por. Sobre encontros, conecções, esperança, fins, cumplicidade, totalidade, necessidade. Sobre o tudo, ali. Sobre nada, também. Sobretudo a arte. Falar pelo corpo, exprimir por movimentos.
Quando falar não é preciso.

(Das horas em que o choro é livre e o corpo parece ter memória que desperta saudades desse tipo de manifestação.)

quarta-feira, 29 de maio de 2013

(sobre)viver em poesia

Eram já velhinhas, pele emborrachada, falta de viço, cabelos ambos sem vestígios de juventude, brancos por (falta de) opção. Frequentavam sempre o mesmo bailinho, músicas raras denunciadas pelo público de andar paciente. Apesar do ambiente em comum, nunca haviam se falado, apesar da ausência de uma ser notável a outra, e vice-versa. Iam sobrevivendo num lar de idosos juntamente com outras quase 80 criaturinhas tidas como senis por seus parentes. Na praça foi onde trocaram miúdos pela primeira vez.
"Que tanto leres, pode-se saber?"
"Um livro, ora."
"Juras? Estava a crer que era a bula de um remédio pra doenças de velho que certamente tens."
"A título de informação, medicamento não me agrada, vou vivendo como posso sem eles. Leio Quintana, "A cor do invisível"."
"Devias ler algo mais contemporâneo; de velharia já basta esse lugar abarrotado delas. E Quintana sempre me pareceu rabugento... Mas fez poesia, o desgraçado."
"Audácia tua meteres o nariz onde não foste chamada. Deixe meu Quintana dormir em paz."
Naquele momento viraram amigas. Assim, do improvável. Caçoavam-se sempre que podiam, e no meio de tanto, divagavam sobre o nada. Numa das conversas:
"Sabes que queria ter sido o que não fui quando jovem..."
"Pois eu não, sinto-me orgulhosa do que me tornei."
"São distintas o que és e o que não foste, velha. Refiro-me aos planos que eu tinha quando nova. Sonhava ter o mundo nas mãos e agora o que me resta é o balanço dessa cadeira que por sinal machuca meus ouvidos toda vez que range esse lamento insuportável e seco."
"Só reclamas?... Sim, bem verdade que gostaria de ter sido algo. Mas o que temos agora é esse filete de vida, se é que devo assim chamá-la. Pelo menos temos uma a outra."
"De que me adianta ter estas conversas gagás? Estamos as duas decrépitas. Se ao menos tivéssemos sido poetas..."
"Poeta a troco de quê, coisa? São seres intimistas, veem coisas onde não há. Onde já se viu livro que chama "A cor do invisível"? Transformam coisinhas insignificantes nas mais belas de um mundo inteiro. E pra quê? A realidade depois vem num baque. Nós é que somos trouxas de ler tais sandices."
E as duas cínicas só faziam rir por dentro de tamanha hipocrisia. Certo dia, a mais sensata fez um apelo:
"Tens que prometer que o dia que estiveres sentindo a morte vir a te buscar vais me avisar pra que eu me prepare sem demoras."
"Tais louca, mulher? Já ouviu alguém prever a própria morte?"
"Então achas que não? Ela deve dar-nos um sinal que seja, um arrepio, um calafrio, um susurro, o que for. Não é possível morrer sem ter chance de pedirmos perdão pelo o que não fizemos... Só prometas que vais me avisar."
"Falas essas asneiras e qualquer dia te botam no hospício. Mas tá certo, diz o ditado que loucos não devemos contrariar."
Assim viviam. Entendiam-se no silêncio, na pausa, no compartilhamento dos versos, nas rabugices mútuas. Nos poetas, nas horas todas vagas, no desespero de uma vida correndo como areia em ampulheta. Assim viviam até que.
"Ouça; hoje acordei e fui buscar Pessoa na prateleira. Debrucei-me sobre as páginas a sortear um poema qualquer, aleatoriamente. O poema "A morte chega cedo" me escolheu."
"O que tem isso?"
"Não percebes? A morte é generosa; veio em forma de poesia."
"Queres dizer que estás a morrer? Cadê a agonia? O remorso, a loucura, tua percepção desesperada do fim?"
"Não há nada disso, estou até conformada. Sinto grande vazio a me preencher. Não deve doer nada, estou despreocupada. Além disso, quero que fiques com meu acervo. E cuide bem do Quintaninha."
"Ora, pare de me amolar com besteiras e vamos tomar sol que hoje aquele velhote das bochechas rosadas vem à Praça me espiar.."
Dois dias depois, partiu pro descanso enfim a velha que previu a própria morte. Dormiu tranquilamente com um hai-kai de Leminski sem mais acordar.
A outra quis ir junto da mesma forma, sem saber que a poesia é quem nos escolhe, bem como a morte.

(Projeto de conto inspirado em A máquina de fazer espanhóis, do sensível valter hugo mãe. Dedicado a Mari, menina grande da qual também sou tiete.)

segunda-feira, 13 de maio de 2013

recesso

Não que o que vou falar aqui seja novo, na verdade é até muito conhecido, infelizmente. Mas sinto que preciso escrever para registrar isso e não deixar o blog assim, um tanto quanto desleixado e com aspecto de que perdeu a importância. Dói mais do que gostaria admitir que minha escrita amuou; perderam-se as palavras, perdeu-se o sentido e tudo o que escrevo parece clichê, algo que já foi escrito com maestria por algum autor incrível ou pior, por alguma adolescente que sofre de amores e só consegue "escrever" quando apaixonada. Todas as minhas leituras andam críticas. Queria dizer que estou feliz com isso, mas o efeito é justamente o contrário: sinto-me impotente de exprimir as formas da maneira que gostaria e me sinto um fracasso por isso. Sei o que quero dizer, mas no momento em que penso em transcrever qualquer esboço de ideia, tudo parece ridículo e pequeno. Vou mesmo escrever sobre isso? E de repente é tudo clichê demais e minha impaciência é a maior do mundo. Quero ultrapassar tudo, quero pular toda essa dúvida, o amadurecimento, a forma, a base, a estrutura e partir pro texto amargurado, já feito, refeito, pensado, pronto. Talvez isso reflita minha pressa de chegar a qualquer lugar que tenho tido no dia a dia.
De qualquer forma, volto quando toda essa confusão de coisas não-ditas e não-escritas estiver passado. Quando algo me inspirar tanto a ponto de não caber numa folha de papel. Quando chorar pra escrever um trecho volte a ser libertador e não sufocante. Volto quando a vida me inspirar e pedir.
Palavras, enfim, tiraram férias.

sábado, 23 de março de 2013

Mais do mesmo

(...e eu não posso evitar.)


  Eu me pergunto se fiz a escolha certa. Há quem diga que esse questionamento é um sinal positivo, quiçá libertário. Li por esses dias que é impossível ter liberdade sem ter incertezas. 
  Ainda assim não consigo deixar de me imaginar tomando outro rumo. Não seria tão desafiador, mas não menos trabalhoso. Da mesma forma que isso me instiga, me faz vulnerável. Sou confrontada agora pela objetividade e subjetividade, logo eu, sempre qualificada como interna, metáfora, até clichê. Já fui descrita como poética, como posso me render à frieza dos fatos, do histórico, da estratégia? 
  Veja bem, amo o que vem sendo incorporado à mim e não tenho intenção de parar, mas até que ponto é suficiente? Não é material; por incrível que pareça é uma questão que envolve mente e coração em conjunto. Me sinto como uma filha pequena que se perde dos pais num shopping tumultuado em véspera de Natal. Em pânico. Logo eu, menina sempre inclinida a achar uma saída sozinha. Não chorar e depender de alguém que a levasse aos responsáveis, mas procurá-los de maneira autônoma, mantendo a calma. Eu e essa urgência de desbravar. Cair e ferir os joelhos com um sorriso nos lábios só por estar correndo sozinha. Tão difícil se olhar, analisar-se assim... 
  Tenho inúmeras vontades, objetivos não delineados por completo, ânsias, desejos. Quero me mover, mas algo me paralisa; não tenho ponto de partida. Digo que estou encaminhada, mas reconheço ser só uma tentativa falha de autoconvencimento. 
  Quero estar preparada, não sei para quê, porém. Ouço palavras de conforto e entusiasmo, mas é tão mais fácil falar em terceira pessoa! Estou perdida e não há mapa, não sei as coordenadas, não sei me guiar pelo sol ou pelas estrelas. Odeio astrologia! 
  Quero vencer, mas luto comigo mesma. Uma batalha vencida, com propósito e sem meio. Ninguém pode ajudar. 
  Só resta a escrita... Não julga, não mente, atormenta, diz verdades. Compensa? Talvez; não sei mais quem sou sem ela. Pode parecer bobo, dramático, batido. Só ela tem me salvado de me enfrentar ao mesmo tempo que me confronta comigo mesma.
  Me encontra...?
  A menina precisa se encontrar. Sozinha.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Estrangeiro

Ahora soy um forastero

Mirándote mirar

Otrora fui de este suelo

Deseando solo escapar

 

Ahora soy um forastero

Mirándote girar

Deseando ahora no ser

Extranjero.

Confesso: tenho um medo danado da liberdade. Essa que defendo, clamo, idolatro e prezo, acima de tudo para me preservar. Me quero sozinha, mas será que por inteiro? Um mundo inteiro que me chama e espera e eu nem sei como vou descobri-lo, mas sei que quero. Uma necessidade que me rasga inteira e me faz vislumbrar o que sei que não estou preparada. Será esse o preço de ser livre? Essa sensação de estar jogando-se nos braços da sorte mesmo sabendo que nem a mais genuína fé é garantia de nada. Amo quem estou me tornando e por isso me desconheço. Como não notar mudanças tão interiores e por isso tão pungentes? Meu eu de um ano atrás é póstumo e esse intruso que me habita é mais que bem vindo. Apesar de gritar por certezas, a dúvida me cai bem. Perdi-me e ainda que essa perda me atormente, traga-me insônia e me faça escrever mil coisas impublicáveis num papel que será rasgado logo em seguida, acolho-a porque reconheço-a como sendo necessária. Pensei optar pelo lado mais curto, mas hoje percebo que não me satisfaz. Sou outra, talvez mais insegura de certezas, mas deveras confiante de surpresas. Essa complexidade que assusta é a mesma que intriga e me faz ter sede.

Só uma coisa em mim permanece a mesma.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Ode ao poeta



  Não te conheço - não pessoalmente. Não sei tuas manias, teus hábitos. Sei só tua doçura, tua escrita, tua ironia, tua sutileza. E quem disse que para ter carinho precisa haver presença? Se acreditasse em vidas passadas, diria que foste meu avô num tempo distante. Sim, porque hoje o que tenho é uma ausência no lugar de um avô. E me dói dizer isso. Porque és a imagem que tenho do que deve ser um vô. Quando te leio, sinto o coração sendo afagado por uma ternura que não me chega ser possível compreender. Fico querendo ser a menina Lili das tuas histórias. Acreditas nisso? Achas ser possível que goste de ti tendo nascido em outra época, tendo visto tua imagem só por fotos e lendo teus escritos somente após tua morte? Pois digo-te que sinto e faço tudo isso. E ainda agradeço-te por ter-me feito amar tua poesia e me encantar com a literatura. Se pudesse, meu abraço te transmitiria tudo isso que me esforço por dizer-te agora. Inclusive, acho muita audácia de minha parte dirigir minha escrita tão singela a ti, Quintana. Tu que foste inspiração, refúgio, delicadeza. Escreveste a mim e a milhares de pessoas sem a noção da comoção que teus versos provocariam. Fazes-me falta; fazem-me falta teus escritos. Vem-me à memória toda vez que me deparo com a beleza do corriqueiro e a minuciosidade dos dias. Obrigada por existir ainda aqui comigo e com tantos outros. Se te levou a morte, é porque o lugar onde te encontras devia estar necessitando irreverência...
Ainda me enches a alma e os olhos.

Com carinho.
À Mario Quintana

"Eu queria trazer-te uns versos muito lindos
colhidos no mais íntimo de mim...
Suas palavras
seriam as mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para as ouvir...
Sim! Uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel!
Trago-te palavras, apenas... e que estão escritas
do lado de fora do papel... Não sei, eu nunca soube o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento
da Poesia...
como
uma pobre lanterna que incendiou!"

Mario Quintana (Quintana de Bolso)