segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Alfabetização poética

  Você trouxe meu primeiro poema. Também a primeira prosa. Não digo que te devo minha escrita, porque ela é autossuficiente demais para precisar de alguém para se projetar. Não que isso signifique que ela não esteja debilitada pelo vazio que preenche a alma; existe por si só, ainda que falha. Mas você me trouxe a noção do que é ser tomada de uma saudade sem significação precisa, uma vontade de relembrar o que fui e o que me motivava, o que senti quando fui tomada por esse sentimento bom – não inédito, mas pela primeira vez com consciência do que é precisar de alguém – e desnorteador.

  Lembro das tardes em que escrevia buscando te entender, sem saber que eu precisava me olhar de dentro primeiro e ainda que, apesar de meus esforços, me entender seria impossível. O papel me ouvia e me silenciava o pensamento. As palavras me abraçavam e me tomavam no colo, tentando amenizar o caos que você instaurara em mim. As orações feriam, mas só queriam que eu me libertasse e eu, nessa busca desenfreada por me encontrar, me perdia sem volta. Nunca voltei a mesma depois de te escrever. E era assim que me construía e tomava ciência do que ocorria em mim. Não com exatidão, mas mais perto daquilo que pensava sentir.

  Penso em te escrever e quem sabe agradecer por isso tudo. Se o fizer, vou pedir que leve tuas palavras da minha escrita, essas que você esqueceu aqui comigo e só agora lembrei de sua presença. Por muito tempo estiveram desaparecidas – adormecidas, quem sabe -, mas agora, com seu retorno, sinto –as mais forte e penso que seu estrago talvez seja maior. Não que desgoste de sua estadia, veja bem. É só que elas me trazem certo saudosismo, algo que não consigo ter certeza e que me faz questionar quem sou e quem vim sendo todos esses anos. São verdade, entende? Talvez uma verdade que eu não esteja preparada pra entender ou enfrentar. Agora só preciso da paz do silêncio das palavras, ainda que doa ter que me desfazer de todo o meu eu-lírico tão carregado da tua presença. Não é real, é só esse sentimento se fingindo de doce para me convencer que está tudo bem. E então vem o amargo que é a tua condição. E a minha também; a consciência de que voltei a um ponto do qual nunca saí.

  Só questiono se é um retrocesso só meu.

Ps: A bagunça no texto, no ordenamento, na estrutura é só o meu reflexo. É como ser alfabetizada de novo. Perdoem a bagunça dentro de mim.

3 comentários:

  1. Ai, Paulinha, como você acaba comigo quando escreve assim. Me identifiquei bastante.

    Beijos s2

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  2. Gostaria de escrever assim!
    Beijos

    mundodapoli.com

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  3. Engraçado, por vezes não tenho certeza se você está se descrevendo ou se pegou um pedacinho de mim no ar e resolveu pôr no papel. A ironia da vida: nessa tua bagunça, eu me achei.

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