quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Memória: futuro


"- E isso de memória seletiva, você acha que funciona?"
"- Não tem como selecionar o que se quer esquecer ou até o que se quer lembrar. A memória habita nossos desejos, nossa parte mais íntima. Tá na pele, no cheiro, em você, em mim, num riso, num livro... É irracional, passional até. Vem num repente, no automático, na simplicidade dos atos. A gente passa e vai deixando marcas por aí que serão lembradas com doçura ou não. A memória é o que você é, o que se mostrou pelo menos. Claro que há certas coisas que a gente se força a não lembrar para não reviver, mas isso só mostra que continua vivo."
"- E você acha que evitar lembrar pode funcionar?"
"- Olha, não sei se efetivamente, mas ajuda. Saudade é um sujeito intrometido, entra sem convite e se instala até que decida já ter machucado o bastante. Mas também acredito que, se o que foi vivido te modificou de alguma forma, é impossível se desconectar abruptamente. Para ser superado precisa ser gradativo... E Deus me livre viver sem lembranças! Faz parte de cada um, entende? É essa tendência de acharem que tristeza é uma coisa ruim..."
"- Você falando assim faz a tristeza parecer amiga..."
"- E não é? Tudo o que há de mais lindo tem certa melancolia. Ela é bonita à sua forma."
"- Quando você fica triste, faz o que?"
"- Me diz você..."
"- Gosto de ouvir música. Dessas que te doem, sabe?"
"- Sei... Eu escrevo. Também porque sou muito alegre e preciso perdurar esse momento. Então preciso prolongar a sensação de ser poeta por um instante. Preciso desse momento para me encontrar e para me maximizar; de fora parece tudo muito pequeno enquanto aqui dentro é tão complexo..."


E num momento, numa hora, num mês as coisas mudam. Tempo. Lindo. Revigorante, sempre.
Tempo tempo tempo tempo já não tenho mais pedidos.

*memória: futuro. Porque o que fica no passado nos influencia hoje. Carregamos o ontem pelo amanhã adentro.

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