sexta-feira, 18 de maio de 2012

Das tolices

  Sei que não devia te falar isso, mas você estava lindo naquele dia. Não havia nada de extraordinário no seu cabelo, tampouco na sua roupa, mas você mostrava tanta segurança que me fez ter inveja – uma inveja boa, de algo que eu queria ter sido. Seu olhar era denso e calmo, como poucos que já cruzaram meu caminho. Seu sorriso era natural como um bom dia e eu me pergunto como você consegue sorrir com os olhos. Estava corado, como quem pega o resto do sol no fim da tarde.

  Até seu jeito estava diferente; você gesticulava com cautela e selecionava minimamente as palavras como se disso dependesse sua vida (mas veja só que ironia... Suas palavras de tão suaves me machucaram mais que qualquer insulto. Porque para os insultos eu tenho minha autoimunidade, mas com tua doçura eu não posso lutar.)

  Não consegui discernir tuas frases porque me perdi em você, fácil demais. Sem esforço você me convenceu a ficar e eu nem fiz questão de me forçar a recusar. Só me vi dentro dos teus olhos trilhando um caminho sem volta. Tentei, então, expressar esse tanto de sentimento que você me fez descobrir, e soube que ia falhar no momento em que a frase se formou na minha boca. Era impossível.

  Talvez se fosse outro alguém ou mesmo seu eu não estivesse presa à tua imagem tão nítida na minha retina que, mesmo que eu feche os olhos, posso lembrar cada detalhe tão seu. Posso sentir o tom grave da sua voz, posso ouvir tua presença tão gritante aqui. E toda vez que sentir teu perfume vou me transportar a uma época que nunca vivi e que tenho saudades.

  Queria saber como pode ter sido. Só lembro que aquela foi a primeira vez que me apaixonei pelo teu olhar e também a primeira em que me perdi em você, dentre tantas outras.

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quinta-feira, 3 de maio de 2012

Sobre algodão doce e frutas fora da estação


  Você me assalta a mente em momentos alternados, sem que eu me dê conta ou planeje qualquer coisa. Te imagino me olhando nas horas mais inusitadas - você nunca teve essa sensação de estar sendo vigiado por alguém a quem tenha carinho só pra que uma pequena falha qualquer seja descoberta? -, me tirando a privacidade. 
  Fico esperando qualquer sinal teu, qualquer mensagem, bilhete, tweet, e-mail, até telepatia me propus a praticar! E, ironicamente, é no meu momento mais cru que você vem. Quando não te espero, quando nem te quero e quando penso que te esqueci. Você já chega me tirando a noção de tudo, me lembrando de esquecer o mundo e já te querendo outra vez. Espero os fins de semana como uma criança anseia a chegada do pai depois de um dia de trabalho. É nos fins de semana que você me visita e eu espero a semana inteira pra me ver sorrir por dentro.
  No sábado você é só meu e usa todo o seu charme pra me manter entretida (como se fosse preciso qualquer coisa se não o teu olhar). Nossas manhãs são tenras e parecem saídas de uma vida que não a minha. As tardes voam em conversas cúmplices e leves, por vezes banais. Somos amigos inseparáveis, apaixonados inconsequentes e confidentes dentro de um mundo que é azul e contém as nuvens mais doces que qualquer algodão (desculpe escrever isso, a gente já não tem controle sobre as palavras normalmente...). Quando a noite chega, já não consigo aceitar que amanhã já vou estar com sua ausência, tão marcante nos meus dias. 
  O domingo é triste; tem gosto amargo. Como uma fruta fora de estação. Domingos nem deviam existir, é o dia que eu me agarro a você na vã tentativa de te fazer ficar. Mas você tem que ir, faz parte, está escrito na nossa história que pra merecermo-nos precisamos estar calejados, não é mesmo? 
   Você parte e parte de mim já não está comigo. A sensação que tenho é de impotência; não é justo que sejamos separados tão perversamente pelo acaso (ou destino?).
   Enquanto você está lá alimentando os sonhos de outros alguéns, esse pedacinho de mim que ainda permanece aqui se questiona se a "nossa história é faz de conta ou é faz acontecer..." *
 
*Trecho de "Nosso pequeno castelo" TM