terça-feira, 24 de abril de 2012

Sol e chuva

 

  Meio a meio por Paula Napolião

  Te encontrei (sic) num domingo abafado, desses que o sol parece castigar aqueles que tem a pretensão de sair a rua. O tempo abafado, curiosamente, era uma metáfora do meu estado de espírito.

  Eu estava distraída, não te notei, mas você fez questão de se fazer notar. Puxou assunto como se já me conhecesse e eu, sem entender, fui dando trégua e quando vi já era um pouco tarde. Você me entreteu e eu gostei do jeito displicente que você mostrou levar a vida, sem grandes preocupações, porém de forma responsável. Pensei que cairíamos bem um no outro; você parecia ser a minha medida certa.

  Naquele dia conversamos sem notar o passar das horas, que corriam como que atrasadas. Você me olhava e eu ia te desenhando e te formando dentro da minha cabeça, querendo analisar seus trejeitos e adivinhar seus defeitos – as qualidades estavam todas ali, na minha frente. Assim passaram-se os dias, as semanas, os meses.

  Daí veio sua hora. Tivemos algo leve, displicente e tão sutil que chegou a parecer irreal que você um dia tivesse existido. Sua passagem foi fácil e eu me dei por satisfeita quando você alegou precisar ir embora. Já veio me dizendo pra que eu não te interpretasse errado, mas que aqui não era o seu lugar. Diferente de todas as reações que eu esperei de mim, fui compreensiva e sorri; te entendia perfeitamente. Disse que você devia mesmo ir procurar seu sentido no mundo e, que quando encontrasse, me mandasse cartas descrevendo sua jornada e suas marcas deixadas por aí afora. Você só sorriu de volta e concordou, rindo de minha inusitada paixão por cartas.

  Guardei aquele sorriso comigo e o trago pelo meu destino. Toda vez que preciso respirar e me lembrar o quão doce a vida pode ser, tiro-o de minhas lembranças e admiro-o de um pedestal. Você me teve nas mãos e eu idem, mas soubemos nos deixar partir. Você me ensinou a dar laços e não nós, a assistir um voo sem torcer para que o outro caia. Continuo querendo te encontrar por aí num sábado, dessa vez, e que ele seja ameno também. Tenho certeza que o dia vai estar nublado e talvez chova dentro de mim quando eu ouvir tuas palavras. Uma chuva branda que vai lavar e me tirar as incertezas, lembrando da tua docilidade e me fazendo querer ser melhor.

3 comentários:

  1. Olá Paula,
    Tenho muitas dificuldades em deixar alguém partir por motivos de: não sei. Não sei deixar as pessoas ir embora, correndo o risco delas nunca mais voltarem. Entro em pânico de pensar na tal alternativa. Me apego muito rápido às pessoas, e deixa-las ir embora, pra mim, é sinônimo de morrer.
    Mas um dia eu aprendo.
    Tenho inveja da maturidade da personagem desse texto.
    Beijos, linda escritora.
    Sah
    __________________________
    saahandradee.blogspot.com.br
    @qualsabrina
    @raasck
    ~

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  2. Sabe, é complicado essas coisas. Às vezes é necessário deixar ir para saber se a pessoa sabe o caminho de volta.

    Beijos
    http://www.eppifania.blogspot.com

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  3. Que lindo, Paula! Esse último parágrafo, em especial, me traz lembranças que com o auxílio das suas palavras ficaram ainda mais nítidas e fáceis de se entender. Adorei, seus textos ficam cada vez mais doces.

    Beijo!

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