segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O hoje que ficou pra ontem

  O choro levou embora uma parte de mim. Bruto, tomou-me impiedosamente e me pôs de um jeito vulnerável. Precisei dele, ainda que contra a vontade de todos, até mesmo contra minha vontade. Ele me tirou o mais profundo sentimento de decepção ou algo que não consegui definir. Difícil resignar-se com o que não é escolhido por sua própria vontade. Todos dizem para aceitar, como se tudo pelo qual se passa não valesse mais nada e simplesmente o que tem a ser feito é abaixar a cabeça e conformar-se. É difícil demais e não me acho sendo justa ao reivindicar isso, apenas não se pode evitar. Fácil proferir que cada coisa tem seu tempo, ainda que eu acredite piamente nisto. É duro demais ver a facilidade com que as coisas se perdem.

  Ainda assim, precisei de um pequeno tempo para notar que, não importa o que eu precise passar, não pretendo deixar que minha força de crescer vá embora. Sei que sou forte e é por meus sonhos que continuo. O dia inteiro fiquei com esse trecho na cabeça: “Milagres acontecem quando a gente vai à luta”.

  Para tentar de novo, é preciso estar pronto para recomeçar. Que o hoje fique para ontem...

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Primavera

  Era fim de tarde. Estava cansada de um dia pesado e duro demais para notar qualquer coisa que não fosse extremamente significante. A cabeça, além disso, doía e parecia alertar que o nível de informação já era grande demais para o que ela podia comportar. Entrei em casa, larguei a mochila que andava me trazendo dores de coluna nunca antes sentidas. Fui até a varanda, tirei os tênis e já ia me virando sem nada notar. Então no segundo em que olhei e não vi, percebi um borrão de cores ao virar rapidamente a cabeça. Voltei a olhar para o que se destacara em meio ao preto e branco de meu mundo.

  Era uma árvore na rua ao lado de meu prédio. Não saberia dizer ao certo qual era o tipo, mas acreditei ser uma cerejeira, por meu limitado conhecimento a respeito de plantas. Não era uma árvore qualquer; tinha um tom róseo de alegria e leveza como eu nunca tinha visto antes. Ou percebido. Ela se destacava talvez não apenas por sua exuberância, mas por estar em meio a tanta insignificância e monotonia de um dia comum e arrastado. O céu escurecia, havia nuvens encobrindo qualquer tentativa de surgir felicidade. Pessoas passavam por ela sem notá-la, com ar de importância e prepotência como se houvesse muitas outras questões mais importantes em suas vidas. Ainda assim, ela estava ali, agraciando a todos com sua bondade incondicional.

  Senti esperança. Um sentimento ameno se instaurou por meu corpo, percorrendo mãos, cabeça e chegando ao coração. Meu ar tornou-se leve, as dores físicas e emocionais se dissiparam sem nenhuma pílula receitada por médicos céticos. Meu remédio estava ali, pronto para ser tomado e sanar todas as minhas feridas. Senti uma luz quente crescer aqui, no peito. O mundo, magicamente, encheu-se de cor e fui tomada por uma alegria desmotivada e serena súbita. Perguntei-me se eu passava bem ou se era o caso de alguma alucinação causada pelo estresse recente. Nunca saberei dizer.

  Não sei até que ponto aquele momento foi real para o resto do mundo. Aqui dentro, porém, foi a parte mais real de mim querendo se mostrar. Uma parte que eu não tinha conhecimento da existência, que se manifestou de forma inesperada e exata, no momento em que precisei. Talvez seja um sinal, um pedido do meu eu que não quer que eu me sinta tão vulnerável a tudo e todos.

  A sensação de paz foi embora, mas é como se ainda estivesse por aqui, esperando que eu me distraia para então me tomar nos braços outra vez e me levar a outro mundo paralelo a esses dias tristes e coloridos de preto e branco.

  Descobri que as flores rosas da tal árvore só mantêm-se vivas por 3 ou 4 dias. E aparecem apenas na primavera. Não quero imaginar o que isso quer dizer, entende?