quarta-feira, 20 de abril de 2011

vinho tinto

  Era noite e ela estava sozinha. A bagunça na sala indicava o quão desleixada ela estava nos últimos meses. Mas, especialmente hoje, a data era tão melancólica quanto havia sendo sua vida. Fazia um ano desde seu último encontro e ela conseguia lembrar todos os detalhes minimamente, começando pelo cheiro de chuva daquela noite, o ambiente acolhedor e tão íntimo do apartamento dele. Lembrava-se do vinho que tomaram, esse mesmo chileno e encorpado que tinha nas mãos agora. Não que gostasse de vinho, aliás era um hábito exclusivamente dele que ela adquirira com o tempo. Ela agora tentava reproduzir todas as lembranças que vinham à sua mente.

  Ligou o rádio, que reproduzia uma música em espanhol, a cantora com voz arrastada, mas doce de forma insuportável. Sentiu-se confortável com aquilo tudo. Pegou papel e caneta e se pôs a escrever. As palavras saíam como um jorro, um desabafo, um choro agoniado de criança, um grito desesperado de dor, uma por uma, machucando-a como se fossem feridas que não parassem de doer e precisassem ser curadas.

  Esperava que ele abrisse a porta e lhe beijasse como fizera àquela época, lhe tomasse para dançar e sugasse toda a sua dor, frustração, lamento, lhe dissesse não irei embora, estou aqui e não te deixarei como tantos outros fizeram.

  Nada disso aconteceria, porque ela sabia que seus erros tinham sido muito maiores do que seus acertos. Tudo estava diferente agora e sua vida parecia não mais pertencê-la, não se reconhecia no espelho, suas olheiras eram demasiadamente obscuras como seu futuro e seu passado era apenas uma névoa branca que a impedia de enxergar com clareza.

  Encheu sua taça e de um gole acabou com todo o líquido vermelho-vivo. Do canto da boca escorreu uma gota, como o veneno que outrora tinha derramado sobre outros.

  Adormeceu ali e sonhou, revivendo suas lembranças, com decisões erradas e caminhos dos quais se arrependia. Nada era como antes.

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