sexta-feira, 22 de abril de 2011

pelos meus olhos

  O que há aqui dentro é o inexplorado. Só no meu íntimo talvez eu consiga compreender. Será possível desvendar-me de todas as formas até um ponto em que não haja mais surpresa com minhas próprias atitudes e sentimentos? Como alcançar a plena sabedoria de si? Até então sigo nessa procura, mesmo sabendo que ela é interminável e talvez não seja o suficiente para responder minhas questões. De qualquer forma me ajuda esse não contentar-se com o que tenho, com o vago, com tudo aquilo que não posso explicar. Me instiga a querer mais, descobrir, desvendar.

  Com os olhos eu tento dizer o que, por algum motivo, tenho medo de pronunciar. Pronunciar dói, fere, machuca de um jeito incrível. Mais duro do que falar é admitir; não ouso. Por isso deixo que me encontrem através dos meus olhos, que até podem mentir, mas não sustentam a mentira por muito tempo. Minhas lágrimas me traem assim que a dissimulação brota nas pupilas. Então não me olhe nos olhos, deixe que me mascare através do meu sorriso, do meu aceno, do meu abraço.

  Deixe-me brincar com você, quero ver até onde posso ir com esse “eu” até então não descoberto por ninguém. Hoje quero ser Ela, totalmente fora de mim.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

vinho tinto

  Era noite e ela estava sozinha. A bagunça na sala indicava o quão desleixada ela estava nos últimos meses. Mas, especialmente hoje, a data era tão melancólica quanto havia sendo sua vida. Fazia um ano desde seu último encontro e ela conseguia lembrar todos os detalhes minimamente, começando pelo cheiro de chuva daquela noite, o ambiente acolhedor e tão íntimo do apartamento dele. Lembrava-se do vinho que tomaram, esse mesmo chileno e encorpado que tinha nas mãos agora. Não que gostasse de vinho, aliás era um hábito exclusivamente dele que ela adquirira com o tempo. Ela agora tentava reproduzir todas as lembranças que vinham à sua mente.

  Ligou o rádio, que reproduzia uma música em espanhol, a cantora com voz arrastada, mas doce de forma insuportável. Sentiu-se confortável com aquilo tudo. Pegou papel e caneta e se pôs a escrever. As palavras saíam como um jorro, um desabafo, um choro agoniado de criança, um grito desesperado de dor, uma por uma, machucando-a como se fossem feridas que não parassem de doer e precisassem ser curadas.

  Esperava que ele abrisse a porta e lhe beijasse como fizera àquela época, lhe tomasse para dançar e sugasse toda a sua dor, frustração, lamento, lhe dissesse não irei embora, estou aqui e não te deixarei como tantos outros fizeram.

  Nada disso aconteceria, porque ela sabia que seus erros tinham sido muito maiores do que seus acertos. Tudo estava diferente agora e sua vida parecia não mais pertencê-la, não se reconhecia no espelho, suas olheiras eram demasiadamente obscuras como seu futuro e seu passado era apenas uma névoa branca que a impedia de enxergar com clareza.

  Encheu sua taça e de um gole acabou com todo o líquido vermelho-vivo. Do canto da boca escorreu uma gota, como o veneno que outrora tinha derramado sobre outros.

  Adormeceu ali e sonhou, revivendo suas lembranças, com decisões erradas e caminhos dos quais se arrependia. Nada era como antes.

sábado, 16 de abril de 2011

amizade

  E quando você está triste, me fere igualmente. Quando te fazem mal, sinto como se fizessem a mim. Quando você sente insegurança, eu fico instável. Quando enxugo suas lágrimas, quero te lavar de tudo o que é ruim ao qual você se expõe todos os dias. Não há nada que me atinja mais do que ver você sofrer.

  Não direi não chore, vai passar, mas chore tudo o que estiver preso aí dentro, jamais deixe que seus medos e dúvidas se acumulem, deite aqui, vamos conversar, diga o que te assombra e eu tentarei só te confortar. Com um abraço, um olhar, um gesto sincero e profundo. Entrego-lhe minhas forças para você não cair, estarei ao seu lado quando todos estiverem contra ti. Não preciso esperar nada em troca, porque sei que você, em todas as ocasiões, esteve ao meu lado.

  Enquanto essa nuvem escura e carregada de negatividade pairar sobre sua cabeça, quero que pense em mim como conforto. Porque sua alegria é o que me faz feliz, nossa cumplicidade é o que nos mantém e tudo isso não significaria nada se não fosse mútuo.

  Hoje e sempre, com toda a certeza que eu poderia ter.