terça-feira, 1 de junho de 2010

He still remembers those days

 

  Fazia então dois meses que ela havia partido. Tudo bem, ele pensou, não significa nada que eu não possa superar. Afinal, já passara por cada coisa anteriormente (que não convinha lembrar naquele instante), que acreditava poder superar tudo o que viesse. Era indiferente à sua partida e de certa forma se sentia mais livre, inclusive. Não havia outra maneira, ele sabia que existiam coisas que apenas aconteciam e não precisavam ter um motivo aparente. Engano seu, claro. Os dois meses que se seguiram foram uma fracassada tentativa de tentar viver.

  Na primeira semana ocorreu tudo como o planejado. Ele ocupou sua cabeça, pensando que ao mantê-la trabalhando, evitaria que seus pensamentos se dirigissem àquela pequena menina-mulher. E funcionou. Saía para estudar, empenhava-se nos trabalhos de seu curso, por vezes chegou a sair com os amigos, na procura de uma diversão qualquer. Chegou até a tentar algo com uma moreninha que, certo dia, lhe dera condições. Mas era fraco, e ele tinha consciência disso. Na hora em que ela encurtou aquela distância de um palmo em que estavam para tentar um beijo, quem sabe, ele desculpou-se e pediu licença retirando-se do bar onde se encontravam, deixando a moça ali com cara de poucos amigos. Estava certo de que isso era só uma questão de tempo, iria se acostumar com aquela situação. Ele tinha certeza que não demoraria muito e já estaria de caso novo.

  Foi assim a segunda semana. Essa, porém, foi um pouco mais difícil. Agora ele tinha uma certa dificuldade em concentrar-se em tarefas diárias. Por vezes pegara-se passeando por lembranças de momentos que haviam compartilhado, em plena aula. Depois simplesmente forçava-se a manter o foco. Era difícil, mas conseguia.

  Na terceira semana, começou a desleixar-se. Seu cabelo agora caía no rosto e não via motivo para cortá-lo; era ela quem o fazia cortar todo mês, alegando que o preferia de cabelos curtos. Ele agora já não se importava, não era algo muito relevante. Sua barba também já dava sinais de uma certa necessidade de ser feita, mas ele também não se importava. Era bom mesmo que ficasse com cara de mau, só assim as pessoas paravam de lhe perguntar o que havia acontecido.

  Sim, as pessoas lhe faziam essa pergunta frequentemente. E ele, como bom ator da vida que era, apenas respondia estar tudo bem. Não devia satisfações a ninguém.

  Quando completou-se um mês de sua partida, ele se deu conta de que não conseguiria. Tudo o que pensara sentir pela tal menina era errado. Aquela indiferença do começo de tudo agora lhe parecia ridícula. Estava claro que necessitava dela como se necessita de ar. Ele não queria soar ridículo, mas era a mais pura verdade. Obviamente que ele continuava sobrevivendo, mas apenas isso. Não vivia como deveria, porque por mais que obtivesse o ar, o mesmo lhe parecia rarefeito, como se aquilo não fosse o suficiente para que pudesse respirar aliviado. As coisas só estariam completas quando ela, aquela por quem se apaixonara mesmo sem saber, estivesse ali por perto.

  Como era idiota; foi preciso que perdesse algo tão valioso para notar sua real importância. Não queria parecer piegas, mas quanto mais acostumado ao bom o sujeito fosse, mais demoraria a se acostumar ao meio termo. Talvez nunca fosse se acostumar.

  Ele queria poder voltar atrás e lhe falar tudo o que sentia hoje. Mas, claro, era tarde demais. Não sabia ao certo, mas temia que ela já estivesse em outro ambiente, com outras pessoas e, o pior, com outro amor. Sempre soube que o mundo girava, mas nunca foi de botar muita fé nesses ditos populares. Pois agora sim, ele acreditava em tudo isso. Céus, como se arrependia de não tê-la amado antes. Como arrependia-se de não ter dado o que ela merecia, de perceber a importância que ela tinha para ele. Chegava a lhe doer por dentro.Mas era tarde para voltar atrás, ele sabia.

  E enquanto isso, ele ia sobrevivendo...

 

3 comentários:

  1. Ai Paulinha, que texto lindo, mas ao mesmo tempo triste. E o pior é que é verdade, a gente só dá o devido valor quando perde. :*

    @mahpilotti

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  2. Que texto mágico! *-* [Mas eu sou um pouco suspeita para falar, visto que eu me derreto fácil com romances, rs.] Sério, eu amei. Fiquei imaginando a cena na minha cabeça (e ontem mesmo assisti um filme de amor) nossa, fiquei toda móle, rs. Lindo, lindo, lindo! Muito gostoso de ler, dava a impressão de eu estar deslizando sobre as palavras, não foi aquela leitura pesada, entende? Eu quero continuação! n_n' Beijones e fique com Deus.

    Lívia, http://vocabulo.confabulando.net

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  3. Que isso caraaaa! Onde que tu aprendeu a escrever assim? Ah sua danadinha rata de clarice Linspector...hahahahaha
    Lindo demais amiga! Voce ta acada dia melhor!
    Bjoos

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